O saber dos dados e a nova ciência da ordem
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A ciência de dados tem se tornado uma disciplina dominante, sendo aplicada nas mais diversas áreas do conhecimento, inclusive nas ciência sociais e humanas.
Ela serve de base também para a inteligência artificial, que muitos veem como uma ameaça à hegemonia humana no trabalho, na gestão e do juízo.
A onipresença da ciência de dados hoje faz dessa disciplina uma candidata a ciência universal. Podemos falar da datificação como uma nova epistémê ou, para usar termos mais populares, um novo paradigma científico dominante?
De certo modo, ela parece-me comparável à epistémê clássica dos século XVII e XVIII, que, segundo Foucault, baseava-se em uma "ciência universal da ordem".
A ciência da ordem era, como a ciência de dados é hoje, uma ciência da comparação. Na epistémê clássica, as coisas do mundo eram postas em série com base num jogo de identidades, diferenças e gradações. A linguagem era neutra, transparente, servindo apenas como um instrumento de representação da ordem dada pelo encadeamento do conhecimento humano.
O que ocorre na ciência de dados hoje é igualmente um jogo de comparação, baseado agora não em identidades e diferenças identificadas pelo homem, mas em correlações estatísticas calculadas pela máquina.
As coisas não têm história, não são, como supunha a epistémê moderna, que, no século XIX, veio a suceder a epistémê clássica, partes inextrincáveis de um processo - elas são elementos em uma função matemática apenas, elementos nomeados por palavras transparentes.
Assim, ocorre situações em que, por exemplo, pessoas LGBTQI+ são censuradas por um robô do Twitter por escreverem a palavra fag em um post.
Onde o robô se perdeu na tradução? Para a máquina, a palavra fag é típica de discursos tóxicos, ofensivos, quando, para essa comunidade, geralmente é um termo irônico e brincalhão. Em seu aprendizado de máquina, descobriu-se depois, o robô foi alimentado por uma amostra enviesada de dados linguísticos, onde as falas da comunidade LGBTQI+ estavam sub-representadas.
Se a minha hipótese estiver correta, a ciência de dados não pode ser considerada como parte da epistémê moderna conforme descrita por Foucault. Ela seria uma retomada da epistémê clássica em outros termos - não mais os termos da máthêsis, a ciência universal da ordem, mas os da estatística e da probabilidade.
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