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Os usos da verdade na política

A coragem da verdade e da "fala franca" ( parresía ) foi o tema dos dois últimos cursos dados por Foucault no Collège de France entre 1982 e 1984. Alguns breves comentários a respeito podem iluminar, eu suponho, certas referências à verdade na política brasileira atual. No primeiro desses cursos, O Governo de Si e dos Outros (FOUCAULT, 2010), o filósofo francês analisa como, em vários textos da Grécia antiga, a palavra parresía passou por uma transformação, deixando de significar o mero direito de se dirigir livremente à assembleia de concidadãos para, nos discursos de Sócrates, se constituir em uma parresía filosófica. Qual era a diferença? Grosso modo, no primeiro caso, que Foucault chamou de parresía pericliana, a fala franca apela à retórica para, em uma acirrada disputa entre oradores e líderes, convencer a cidade a se unir sob uma só ideia. "[Na] situação conflitual em que pessoas pertencentes à elite ou que querem jogar o jogo agonístico se deparam c...

O mito da neutralidade científica - mais uma vez

O mito da neutralidade científica é renovado pela enésima vez na coluna do Henrique Gomes , que não deixa de ser brilhante em vários aspectos. Ao invés de "suprimir o seu lado pessoal", porém, parece-me mais válido e produtivo "reconhecer o seu lado pessoal" na pesquisa. É a melhor vacina contra vieses, penso eu, e, ao mesmo tempo, fortalece o compromisso do cientista com os valores que passarem ilesos por essa autocrítica. Uma ciência isenta de valores, eu duvido que exista - nem me parece desejável se queremos uma ciência que seja também ética, e não apenas verdadeira.   Leia também: O lugar de fala de Bolsonaro contra a ciência

O lugar de fala de Bolsonaro contra a ciência

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, pode cometer os piores pecados e, ainda assim, haverá párocos saindo em sua defesa.  O que está em jogo aí não é a moralidade e a salvação das almas, mas dois regimes de verdade antagônicos.  Em Bolsonaro, há um retorno a um regime que vem de longe e nunca deixou de existir, mesmo que, na maior parte do nosso tempo, tenha subsistido no subterrâneo, nos grotões e nas capelas.  Que regime é esse? É aquele que define como discurso verdadeiro o discurso que é "pronunciado por quem de direito e conforme o ritual requerido", diria Foucault: não importa tanto o é que dito, mas quem o diz. É o regime em que se encontra Trump também, como sugere Luiz Felipe Pondé ao classificar o presidente norte-americano como um político pós-moderno . Notem, é um regime muito diferente do regime que foi se constituindo a partir de Platão e culmina na ciência moderna. A forma geral desta "vontade de verdade" é outra. Nela, há um deslocamento do ato rit...

Zen e verdade em Foucault

Há um zen em Foucault, que, de certa forma, é o zen dos estudos do discurso do século XX para cá. Os mestres zen nos alertam contra maya, o mundo ilusório que criamos por meio de nossos conceitos e de nossas palavras, o qual confundimos com a realidade - de um outro modo, é a mesma advertência que Cristo prega nos evangelhos, escandalizando aqueles que, desde a sua época, se apegam à letra da lei. Foucault, por sua vez, se propõe a colocar a verdade do discurso contra o discurso verdadeiro, isto é, voltar à questão que, a partir de Platão, o Ocidente abandonou, a esta questão que seria tão cara a um mestre zen: perguntar o que é o discurso, o que ele faz, como ele cria, historicamente, os vários regimes de verdade - e não, como queria o filósofo grego, quais são as condições universais de um discurso verdadeiro. A questão de Foucault, que também é a questão do zen, quando encarada seriamente, abre um amplo espaço de liberdade e de criação, aquele mesmo que Cristo apontou quando disse: ...