28.6.09

Essa é a natureza humana

Vi este vídeo primeiro no blog do Diniz Júnior. Incrível como a letra da música e a dança robotizada, no finalzinho da gravação, lembram a vida do moonwalker Michael Jackson, e, porque não dizer, a nossa própria, em nossa inquietude com os limites do corpo, em nosso desejo de transcendê-lo, de vencer a morte, de realizar o que há de eterno em nós. Descanse em paz, mister Jackson, essa é a natureza humana.

13.6.09

Não me faça pensar

As evidências acumulam-se. Não gostamos de pensar. Muito raramente planejamentos e agimos com plena consciência do que estamos fazendo, com critérios e objetivos claros. E eu nem sei se isso seria proveitoso (como sugerem os manuais de estratégia e tomada de decisão), pois geralmente seguir planos é pedir para ser trouxa.

Pois bem, estou lendo um livro fantástico sobre usabilidade de web sites. Chama-se Não me Faça Pensar, de Steve Krug. Em seu segundo capítulo, entitulado Como realmente usamos a web, são apresentados três fatos sobre o comportamento dos usuários da rede.
  1. Nós não lemos páginas. Damos uma olhada nelas.
  2. Não fazemos escolhas ideais. Fazemos o que é suficiente.
  3. Não descobrimos como as coisas funcionam. Nós apenas atingimos nosso objetivo.
É uma bela descrição do comportamento não só dos internautas como de qualquer tomador de decisão, seja ele um consumidor, um gestor ou um amante. Aliás, Steve Krug recorre aos famosos estudos de campo de Gary Klein para justificar suas ideias. Reproduzo a seguir alguns dos seus argumentos.
A equipe de observadores de Klein começou seu primeiro estudo (sobre comandantes de bombeiros em situações de incêndio) com o modelo amplamente aceito de tomada racional de decisões: ao se deparar com um problema, uma pessoa coleta informações, identifica as possíveis soluções e escolhe a melhor. Eles iniciaram com a hipótese de que, devido à importância e à extrema pressão de tempo, os comandantes de bombeiros poderiam comparar apenas duas opções, uma suposição que eles achavam que fosse conservadora.

Acabou que os comandantes de bombeiros não comparavam quaisquer opções. Eles pegavam o primeiro plano razoável que vinha à mente e executavam um teste mental para descobrir algum problema nele. Caso não encontrassem algum, já tinham seu plano de ação.
Irracional? De modo algum. Há muitas vantagens em agir assim, sem dar muita bola para um planejamento analítico e formal. Eis algumas delas:
  • Como Klein destaca, "otimizar é difícil e demora muito. fazer o suficiente é mais eficiente."
  • Geralmente não há uma punição grande para suposições erradas.
  • Num mundo confuso e imprevisível, ponderar as opções pode não melhorar as chances.
  • Adivinhar é mais divertido, já que aumenta as nossas chances de encontrar algo surpreendente e bom.
Note, tudo isso não quer dizer que nunca ponderamos criteriosamente as opções antes de agir. Quando usamos o modo de pensar cogitativo, nós costumamos ser mais analíticos e críticos. Acontece que raramente nós o usamos. Preferimos nos manter no modo experiencial de pensamento, o que, como vimos acima, não é necessariamente ruim.

30.5.09

Um (pre)texto para a imaginação

Alguns de meus alunos de negócios e marketing se surpreendem quando descobrem meu envolvimento com a poesia. Eu sei, a mistura parece não caber nas fôrmas mentais que usamos cotidianamente. Afinal o administrador costuma ser caracterizado na nossa cultura por sua racionalidade instrumental. Frio, calculista, pragmático, materialista, o gestor seria o oposto do sensível, emotivo e espiritualizado poeta. Ora, esse senso comum carrega um grande engano que tentarei esclarecer em poucas linhas.

Para começo de conversa, poesia não é emoção. Envolve a emoção também, mas não apenas ela. E nem é a emoção seu principal elemento. A poesia, como toda forma de arte, é o exercício radical da observação e da criatividade, o que nos dá uma boa razão utilitária para usar e abusar dela: desenvolver a imaginação, essa matéria-prima da inteligência humana.
"A razão só pode seguir os caminhos que imaginação abriu primeiro. Sem palavras, não há raciocínio. Sem imaginação, não há palavras novas. Sem palavras novas, não há progresso moral ou intelectual.

Culturas com vocabulários mais ricos são mais plenamente humanas – mais distantes das bestas – do que as mais pobres; homens e mulheres individuais são mais completamente humanos quando suas memórias estão amplamente estocadas com versos." (Richard Rorty).
Eu já discuti aqui no blog como a emoção pode ser um fenômeno muito menos subjetivo do que supomos normalmente. Não irei repetir todos os argumentos. Quem quiser e tiver tempo leia este meu ensaio sobre o assunto. Por hora, lembro apenas que as nossas emoções só se tornam perceptíveis e significativas para nós graças à sua natureza cultural e simbólica. Isto quer dizer que elas são fortemente institucionalizadas, moldadas por valores e crenças coletivas.

De fato, as emoções podem ser muito pouco criativas. Elas podem ser até mesmo um obstáculo à imaginação, já que a sua expressão é fortemente estruturada por convenções sociais e culturais (1).

Talvez por isso João Cabral de Melo Neto tenha dito que a poesia é como um pássaro que é obrigado a caminhar um quilômetro no chão. Fiel à sua abordagem antilírica, o poeta pernambucano esclarecia com tal frase que as asas da nossa imaginação não são movidas apenas pela emoção inspiradora.

Como bem alertou Antonio Cicero em uma das suas últimas colunas para a Folha de São Paulo, geralmente as nossas "idéias inspiradas" não passam de ecos e simples rearranjos do que lemos e ouvimos por aí (2). Por mais vexatório que seja para nós, fato é que grande parte dos nossos discursos, especialmente aqueles mais espontâneos, é mera papagaiada.

Para escrever ou dizer algo realmente original, criativo e único, é preciso estar atento aos ilusionismos da inspiração repentina e aos automatismos da língua domesticada. É aí que está o lance da poesia. "As minhocas arejam a terra, o poeta areja a linguagem", explica o poeta Manoel de Barros. A poesia extrai a porção fóssil da língua, chacoalha as nossas idéias acostumadas.

O professor e crítico João Adolfo Hansen expressou a proposta brilhantemente em um artigo que citei recentemente no site Poesia Hoje:
"[O papel da poesia é] produzir vazio, evidenciando a ficção que é o eu, impedindo que se delire com a linguagem das instituições, dando forma eficaz às maiores dores, fazendo a gente ficar espantado com a alternativa de outra vida" (3).
Como a poesia é capaz de fazer isso? Por meio de boas metáforas (como quando João cabral compara a poesia a um pássaro, por exemplo): o estofo de um grande poema é a metáfora escrita de uma forma rara e sensível.

Manoel de Barros costuma dizer que em seus poemas a metáfora apaga a idéia, e que, por isso, os seus leitores ficam livres para atribuirem as idéias que quiserem aos seus textos. Ou seja, os leitores têm de usar a imaginação para darem algum sentido à poesia dele, pois nela poucas palavras são usadas de acordo com os seus significados convencionais. Ou seja, ela é um (pre)texto para a imaginação.

E é bem assim que a poesia estimula a criatividade, por meio das ambiguidades com que a linguagem (des)figurada nos desafia. Ela é, portanto, não apenas "uma ocasião para a beleza", como nos ensina Jose Luis Borges em Esse Ofício do Verso, mas também uma ocasião para o exercício da imaginação.

Agora então, meu caro aluno de administração e marketing, se você quiser ter um bom motivo "administrativo" para ler poesia sem vergonha, já pode dizer: "leio poesia para aumentar a minha criatividade, o que pode me ajudar a ter mais idéias inovadoras para os nossos negócios, blá, blá, blá" (4). No fundo, porém, nós sabemos que o seu objetivo é bem mais nobre: você lê poesia para se tornar plenamente humano.


Notas

(1) Como discuti neste ensaio, a própria arte, apesar de toda a imaginação que ela envolve, é também moldada, em parte, por instituições sociais e padrões culturais, o que nem sempre é devidamente reconhecido por aqueles que enfatizam a dimensão individual e solitária do gênio artístico.

(2) Ironicamente, nesta postagem, eu faço coro com vários autores com quem concordo. Eu os ecôo porque eles m(e(co))respondem. Não é sempre assim quando nos identificamos com alguma idéia?

(3) "Produzir o vazio" também é a finalidade da prática zen-budista, sobre a qual escreverei aqui em breve, explorando esse e outros dos seus parentescos com a poética.

(4) Outro bom motivo para o estudioso de marketing se envolver com poesia é a natureza metafórica das marcas pós-modernas. Mas vamos deixar esse assunto para outro dia. Por enquanto, ficamos com uma explicação que o seu patrão e os seus colegas possam entender mais facilmente.

19.5.09

O disco de 1991 e de qualquer ano


Graças à Z., do The Bossa Blog, recuperei hoje um dos discos mais marcantes que já ouvi na minha vida: Romã (1991), CD instrumental do guitarrista Hélio Delmiro, gravado com um time de bambas num fim de semana único na Sala Cecília Meirelles, Rio de Janeiro. É das coisas da minha juventude de que não me esqueço e que me arrepia. Ponto alto de uma fase em que havia muito instrumental brasileiro por todo canto da Cidade Maravilhosa. No Parque da Catacumba, no Arpoador, nos Shoppings. Victor Biglione, Cama de Gato, Pascoal Meirelles, Gílson Peranzetta, turma boa. Rique Pantoja também, que acompanhou o Hélio Delmiro nessa noite antológica. E com eles, Carlos Bala e Nico Assumpção (bateria e contrabaixo respectivamente). O disco daquele ano e de qualquer ano. O CD é todo especial, mas há nele daquelas músicas que me fazem de um silêncio sem necessidades. "Inaiá", "Paz no Coração", "Só Saudade" e a faixatítulo. Sim, eu me sinto à flor da pele enquanto ouço e escrevo Ro-mã.

28.4.09

Companheiros de Bienal

Tive o prazer de cruzar palavras com dois jovens poetas nessa Bienal do Livro, a Priscila Fernandes, daqui de Salvador, e o Moacir Eduão (meduao@hotmail.com), de Irecê. Juntos recitamos poesias e discutimos a arte no evento conduzido pelo poeta e produtor cultural José Inácio Vieira de Melo. Transcrevo a seguir dois belos poemas desses meus companheiros de Bienal. O poema da Priscila foi retirado do seu blog, e a Viagem antípoda do Moacir, do seu último livro Desespaços (2008). Espero que gostem tanto quanto eu.


(Sem título)


De Priscila Fernandes

É bom saber do que gostas,
saber calada,
sem te acordar.

É bom te ouvir
junto ao silêncio que entra em mim
quando ajeitas o cabelo.

Seria bom, se tudo fosse assim,
silencioso.
Se nada tivesse família
ou nome.
E se não fostes tão hiperbólico.

Só os grilos, o terreiro
e ecos da cidade...

O calar do amor,
sem aprendizado algum.



Viagem antípoda

De Moacir Eduão

Despeço-me
da sempredade das coisas.

Como quem foge dos pontos de chegada
fujo dos pontos de partida.

Esperando, fugi dos momentos -
.....................não dos lugares.

Reconheci no antigo
........o mesmo acordar alheio
pairando
pousando
..............no desconhecido.

27.4.09

Arte y Pico

O agregador POESIA HOJE recebeu o Arte y Pico da escritora Adelaide Amorim. Fico feliz pelo reconhecimento, ainda mais vindo de uma pessoa que admiro tanto.

Pelas regras do prêmio, eu devo indicar agora cinco blogs que se destaquem pela criatividade, relevância e contribuição para a comunidade.

Recomendarei então cinco daqueles que me acrescentam muito: Antonio Cicero, Micheliny Verunschk, Ronald Augusto, Ricardo Domeneck e Valéria Freitas.

1.4.09

9a. Bienal do Livro da Bahia

A 9a. Bienal do Livro da Bahia terá um espaço dedicado exclusivamente à poesia e ao cordel. Apresentar-se-ão nele, os principais nomes da poesia contemporânea no estado. Estarei lá dia 26/04, às 18h00, lendo alguns poemas meus. Confira aqui a programação completa do evento.

10.3.09

Erros e acertos do jornalismo colaborativo

Uma das palavras de ordem no momento é o jornalismo colaborativo, e o Twitter, uma plataforma social de atualização de status, lidera as especulações a respeito. Veículos tradicionais experimentam a nova onda, e alguns me parecem estar metendo os pés pelas mãos... [Continue lendo no Siga a Pista].

9.3.09

Poesia Hoje, agregador da poesia contemporânea

O Poesia Hoje surgiu no Twitter e está com site próprio. O serviço agrega dezenas de sites e blogs, permitindo que acompanhemos todas as novidades da poesia brasileira contemporânea a partir de uma única página.

1.3.09

Entrevista com Antonio Cicero

Por Héber Sales

Filósofo, poeta e compositor, parceiro, entre outros, de Marina Lima, Adriana Calcanhoto, João Bosco e Lulu Santos, Antonio Cicero publicou em 2006 o livro Finalidades sem Fim, uma obra que o coloca, a meu ver, no centro de um espaço ainda muito carente na poesia brasileira: o espaço de uma reflexão unificadora e sistemática sobre a arte... [Continue lendo no Cronópios].