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O lugar de fala de Bolsonaro contra a ciência

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, pode cometer os piores pecados e, ainda assim, haverá párocos saindo em sua defesa.  O que está em jogo aí não é a moralidade e a salvação das almas, mas dois regimes de verdade antagônicos.  Em Bolsonaro, há um retorno a um regime que vem de longe e nunca deixou de existir, mesmo que, na maior parte do nosso tempo, tenha subsistido no subterrâneo, nos grotões e nas capelas.  Que regime é esse? É aquele que define como discurso verdadeiro o discurso que é "pronunciado por quem de direito e conforme o ritual requerido", diria Foucault: não importa tanto o é que dito, mas quem o diz. É o regime em que se encontra Trump também, como sugere Luiz Felipe Pondé ao classificar o presidente norte-americano como um político pós-moderno . Notem, é um regime muito diferente do regime que foi se constituindo a partir de Platão e culmina na ciência moderna. A forma geral desta "vontade de verdade" é outra. Nela, há um deslocamento do ato rit...

Zen e verdade em Foucault

Há um zen em Foucault, que, de certa forma, é o zen dos estudos do discurso do século XX para cá. Os mestres zen nos alertam contra maya, o mundo ilusório que criamos por meio de nossos conceitos e de nossas palavras, o qual confundimos com a realidade - de um outro modo, é a mesma advertência que Cristo prega nos evangelhos, escandalizando aqueles que, desde a sua época, se apegam à letra da lei. Foucault, por sua vez, se propõe a colocar a verdade do discurso contra o discurso verdadeiro, isto é, voltar à questão que, a partir de Platão, o Ocidente abandonou, a esta questão que seria tão cara a um mestre zen: perguntar o que é o discurso, o que ele faz, como ele cria, historicamente, os vários regimes de verdade - e não, como queria o filósofo grego, quais são as condições universais de um discurso verdadeiro. A questão de Foucault, que também é a questão do zen, quando encarada seriamente, abre um amplo espaço de liberdade e de criação, aquele mesmo que Cristo apontou quando disse: ...

Gênero do discurso como ritual

O que é colocado em jogo num diálogo vai muito além da gramática e do dicionário. Quando compreendemos isso, a nossa capacidade de nos situarmos numa conversa, numa leitura ou num processo social qualquer, se enriquece muito. O enunciado é concreto, diria Bakhtin, o seu sentido depende do contexto - e não vamos confundir isso com o co-texto, pois os discursos carregam em si, além das palavras, todo um feixe de relações sociais, valores, crenças e códigos que não são pronunciados nem escritos em lugar nenhum, mas que a comunidade/sociedade conhece muito bem. A propósito, Foucault foi muito feliz ao falar em "ritual de discurso", e não em "enunciado concreto" ou "gênero do discurso" como o bom e velho Bakhtin, embora, a meu ver, esses conceitos sejam bastante afins. Pois é disso que se trata, um ritual, não apenas de palavras e frases, mas de formas socioculturais, de história.   Notas: 1) Sobre gêneros do discurso, recomendo o livro homônimo de Mikhail Bak...

O fim do homem na era da inteligência artificial

Quando Foucault escreveu que o Homem estava prestes a desaparecer do horizonte das ciências humanas e o puro discurso era o que lhes restaria como objeto de estudo, ele não imaginava, até onde sei, que sua previsão se cumpriria numa ciência muito diferente: a ciência da computação. Pois bem, neste campo, o desenvolvimento da inteligência artificial só deslanchou a partir do momento em que os cientistas desistiram de descobrir como funciona a inteligência humana de fato - o Homem desapareceu do seu horizonte. Eles deixaram de tentar reproduzir a sua essência, que jamais encontravam, para construir sistemas que, por meios que nada têm de biologicamente humanos, conseguem ainda assim se comportar inteligentemente. A era do puro discurso pode não ter chegado, mas a era da pura inteligência parece ter começado. E eu não estou usando a palavra pura porque tal inteligência seja superior ou perfeita, muito menos desejável. Não se trata de um juízo de valor.   Notas: 1) a tese de Foucault m...

O sujeito e a história

Suponhamos que o sujeito não consiga ter clareza das suas emoções e dos seus pensamentos até que lhes dê um nome e conte uma história sobre eles, nem que seja para si mesmo somente, em silêncio. Suponhamos que as palavras em geral não apontem para as coisas em si, mas para outras palavras, que as definem. Suponhamos que o sentido das palavras esteja inextricavelmente ligado ao contexto social & cultural em que são ditas, tanto o mais imediato quanto o mais distante. Suponhamos que o contexto social & cultural jamais permaneça o mesmo no tempo e no espaço. O que o sujeito pode dizer de verdadeiro a respeito de si mesmo, da vida e dos livros? O que pode dizer que não seja tão passageiro quanto a história? Leia também: O sujeito da linguagem

O trabalho da liberdade em Foucault

Foucault não é citado no artigo de Zack Beauchamp na Vox , mas o texto ecoa o pensamento do filósofo francês. O que ele diria a respeito?  Que não há normas "boas" ou "más", que todas as normas sociais nos oprimem, mas também nos empoderam.  Ele diria ainda que a nossa liberdade depende da prática da crítica, uma prática que consiste em investigar os processos que moldaram o nosso modo de ser, e então tomar medidas a respeito. Para Foucault, liberdade é aquilo que conseguimos fazer de nós mesmos em um contexto histórico específico.   Leia também: O sujeito e a história